Em 1997, um mestre dos quadrinhos nos deixava

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Em 1997, um mestre dos quadrinhos nos deixava

 Nos anos 1990, pouca gente que assistia a Tintim e a Lucky Luke na TV sabia que esses personagens vinham de quadrinhos da Bélgica. Uma parcela ainda menor sabia que os Smurfs também se originavam das HQs, com outro nome: Strunfs. O que dizer, então, de Spirou e Fantásio, mencionados várias vezes aqui?

Este post veio justamente para apresentar André Franquin, um dos pais dessa dupla tão famosa na Europa e quase desconhecida no Brasil.

Quem é Franquin?

Dizer que Franquin é um dos pais dessa dupla, significa que a criação de Spirou e Fantásio não surgiu da cabeça dele. O quadrinista assumiu as histórias e as transformou radicalmente.

Sua carreira iniciou em um estúdio de animação belga, trabalhando em meio-período. Ali, conheceu Morris (autor de Lucky Luke) e Peyo (criador dos Smurfs). Um ano depois, em 1944, por conta dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, o estúdio fechou as portas. Morris, então, apresentou Franquin a Jijé, outro co-criador de Spirou.

 

Capa da revista Le Moustique. Franquin já tinha a manha desde cedo!

Capa da revista Le Moustique. Franquin já tinha a manha desde cedo!

O jovem Franquín passou a trabalhar como assistente e aprendiz, ilustrando capas para as revistas da editora Dupuis, até que, num belo dia de 1947, assumiu o texto e os desenhos da série Spirou et Fantasio. Claro, com a ajuda de uma equipe.

Aos poucos, Franquin impôs seu estilo: as histórias ganharam mais páginas, os roteiros tinham mais aventura e humor e novos coadjuvantes surgiram: o Conde de Champignac, cientista excêntrico e especializado em cogumelos; a aldeia de Champignac; Zantáfio, o primo malvado de Fantásio; Zorglub, o cientista louco; Secotine, uma jornalista rival; e o Marsupilami, animal exótico que, muitos anos mais tarde, ganharia série própria em quadrinhos, desenhos animados e até filme com atores de carne e osso. Será lançado em 2017 o filme Petit Spirou, que irá tratar da infância do personagem.

Cinco estágios até chegar num estilo inovador

Cinco estágios até chegar num estilo inovador

Franquin é da primeira geração de autores que desenvolveram um traço personalizado, sob influência de Jijé, e batizado posteriormente como Estilo Atômico ou Escola de Marcinelle. Os automóveis, os inventos, as paisagens e os cenários de interiores são verdadeiras aulas de design gráfico! Esse estilo foi e é adotado por muitos outros artistas até hoje.

 

Uma estrela em ascensão

Em 1955, por conta de desentendimentos, o artista deixou a Dupuis, assinando um contrato de cinco anos com a concorrente, Lombard. Ali, criou histórias de página única com dois novos personagens: Modeste e Pompon. Pouco depois, as desavenças com a antiga editora foram superadas e Franquin passou a trabalhar para ambas editoras. Felizmente, dois roteiristas o ajudavam nas piadas de Modeste e PomponMichel Greg e René Goscinny (Asterix). Ao fim do contrato, outros artistas assumiram em seu lugar.

Modeste e Pompon saiu no Brasil, na revista Tintim, nos anos 1970

Modeste e Pompon saiu no Brasil, na revista Tintim, nos anos 1970

Em 1957, Franquin criou o que considerava seu personagem favorito: Gaston Lagaffe. Com um visual beatnik, trata-se de uma espécie de “precursor civilizado do Groo”. Sua lerdeza de raciocínio causava as maiores confusões na redação onde Fantásio trabalhava. De secundário a principal, Gaston fez um tremendo sucesso na Bélgica e na Europa, a ponto de se tornar o primeiro personagem a figurar em anúncios publicitários, da Kodak nos anos 1970 e da Philips nos anos 1980.

O auge da produção artística de Franquin se deu entre as décadas de 1950 e 1960, quando desenhava a série Spirou e Fantásio, produzia Gaston e Modeste e Pompon, além das capas dos álbuns e da Revista Spirou.

Gast

Gaston Lagaffe

Uma fase sombria

Apesar de dividir a carga de trabalho com uma equipe competente, Franquin via-se com frequência sujeito a crises de depressão, uma das quais o levou, em 1961, a interromper a produção de um álbum de Spirou. Embora tivesse transformado o personagem num clássico, jamais se sentiu à vontade com criações que não eram suas. Em 1968, entregou a série para outros autores, passando a dedicar seu tempo a Gaston. Decidiu, porém, manter o Marsupilami para uso futuro. Isso gerou problemas de direito autoral, solucionados somente em 2016.

Em 1977, na Revista Spirou, Franquin criou a série Idées noires (Pensamentos sombrios): histórias de uma página, totalmente desenhadas em preto, com um humor pessimista. Foram trinta edições. Em seguida, na revista Fluide Glacial, publicou La mitre railleuse (A mitra zombeteira), com cartuns de um bispo que adora aprontar com os outros.

 

Idées noires: pessimismo e temas adultos

Idées noires: pessimismo e temas adultos

Em 1992, tendo seu trabalho reconhecido em toda a Bélgica e comparado a Hergé, Franquin, que havia cedido o Marsupilami a um editor que abriria a Marsu Productions, fez o mesmo com o restante de seu trabalho. Aposentou-se praticamente um dia antes de sua morte, 5 de janeiro de 1997. Mas já havia provado o sucesso de seu mais querido personagem: o número 15 de Gaston Lagaffe vendera mais de 650 mil exemplares em um mês e meio.

Se você quiser conhecer mais sobre a obra desse artista espetacular, desde 2015, a Editora Sesi-SP está lançando tudo e mais um pouco. Confira aqui!

Só mesmo um GÊNIO pra transformar uma coisa mais ou menos em um sucesso!

Só mesmo um GÊNIO pra transformar uma coisa mais ou menos em um sucesso!

 

Fontes: https://www.lambiek.net/artists/f/franquin_andre.htm

Franquin, André

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